13 de janeiro de 2014

Minhas.



Sempre achou que sua vida podia ser melhor se estivesse só ou com qualquer outra pessoa que já não dividisse o mesmo teto desde sua existência.
A casa não era das melhores, a companhia diária já havia enjoado. Ser alguém aos olhos da família, sendo outra longe de olhares que protegem já não era suportável, então se foi.
Um novo caminho sem olhar pra trás. Como pó, arrastou o passado para debaixo do tapete velho, já com o “bem-vindo” gasto da porta da casa que deixou. O pisou garantindo não haver qualquer tipo de tropeço e se foi.
Pouco se sabe sobre os jardins e abismos que há nessa jornada, pouco se entende sobre os motivos sórdidos que a tomaram para impensada decisão. Não conseguiu ir longe, nem obter sucesso, apenas um orgulho infindável acompanhado pela inveja e maldade que se libertou junto com a sua suposta liberdade.
Não é independente, não é inteligente, não é elegante, não tem bom gosto ou bom tom. Interessante pela silhueta bem desenhada e trajes insinuantes, apenas. Uma pena.
Hoje relata o dia de sua alforria, biografa suas aflições, repele o egoísmo alheio sem notar que o seu próprio é que o causa, sempre disserta a inveja que sente como sendo do outro, se degrada. Um brinde ao seu grande coração, a pureza exalante em seu olhar e a sua doce voz que declama lindamente cada milímetro de sua dor, de sua felicidade vivida.  
Inexiste o reconhecimento de sua base, não se recorda do amor, da atenção que lhe era dada. Não bastou desligar-se, almejou e alcançou repulsa.
Preocupar-se deve em evitar o passado. Ele pode trazer as boas lembranças facilmente notadas em registros de imagens e causar overdoses de saudades do amor que jamais sentirá outra vez.
Sempre achou que sua vida podia ser melhor se estivesse só ou com qualquer outra pessoa que já não dividisse o mesmo teto desde sua existência. Esqueceu de olhar em volta, não notou que minhas roupas e minha identidade, são minhas.